Querida Profa. Ema Watanabe,

O tempo passou, mas algumas lembranças perma­necem tão vivas quanto o brilho do sol nas manhãs de primavera.

Ainda guardo na memória — com ternura e saudade — o dia em que a senhora chegou à escolinha da co­lônia, fincada entre os cafezais e estradinhas de ter­ra da Fazenda Viradouro, onde hoje se ergue Votu­poranga.

Naquele tempo, os pais, todos imigrantes japoneses, se uniram com o coração cheio de esperança para dar aos filhos o que havia de mais valioso: a educa­ção. Construíram com as próprias mãos um salão e pediram à prefeitura que mandasse uma professora.

E então veio a senhora… tão jovem, recém-saída do curso normal, sem nenhuma experiência — mas com o olhar cheio de luz e uma imensa vontade de fazer o bem. Chegou com alegria, como quem com­preende que o destino pode começar até mesmo no canto mais escondido do mundo.

Eu, com meus sete aninhos, a observava em silên­cio. Para mim, a senhora era como uma figura en­cantada — tão elegante, com roupas da cidade e um sorriso sereno que parecia trazer consigo um peda­cinho de outro mundo.

Os homens da comunidade a acolheram com respei­to e reverência, chamando-a sempre de “Dona Ema”, mesmo sendo tão novinha. Em nossa casa, o papai lhe ofereceu o melhor quarto — um gesto simples, mas cheio de gratidão.

Eu era uma criança tímida, mas de olhos atentos. E como adorava nossas noites na varanda, após o jan­tar, quando a senhora nos contava histórias… Ah, como eu me encantava! Algumas me faziam tremer, como a da Chapeuzinho Vermelho, que eu ouvia com os olhos arregalados, temendo pelo destino da pequena personagem — talvez por me enxergar ne­la, tão frágil quanto.

Nas aulas, a senhora era doce, mas firme. Ainda me lembro — com um sorriso — quando colocou os dois irmãos mais bagunceiros de pé na frente da sala du­rante toda a aula. Ninguém nunca mais desafiou aquela autoridade gentil.

Foi com a senhora que também conheci os cami­nhos da fé. Nas aulas de religião, ouvíamos falar de Jesus Cristo — o homem mais bondoso que já exis­tiu, que mesmo sendo rei, era humilde e cheio de amor. Só depois entendi que era esse amor que transbordava da senhora e nos tocava tão profun­damente.

Jamais esquecerei do dia em que nos levou, todos os alunos, para sermos batizados na Igreja Católica. Cada criança teve um padrinho — ninguém ficou sem. O meu foi o dono da sorveteria, e eu me senti importante. Tenho certeza de que, lá no céu, Jesus e Nossa Senhora sorriram para a senhora naquele dia.

Dois anos depois, veio a partida. A senhora seguiu seu caminho no magistério, e nós ficamos… com o coração apertado e as lembranças guardadas no pei­to. Nenhum outro professor tocou tão fundo a nossa comunidade como a senhora.

Os anos se passaram, mas os ensinamentos que re­cebi naquela escolinha simples ainda ecoam em mim. Em cada gesto, em cada palavra que comparti­lho, levo comigo um pedacinho da senhora — como uma luz silenciosa que continua me guiando até ho­je.

Às vezes, ao ver o sol nascer, sinto como se visse seu sorriso mais uma vez — sereno, luminoso, cheio de esperança. Porque, para nós, a senhora não foi só uma professora. Foi o nosso sol.

Com gratidão eterna e profundo carinho, Susana

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